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Quadros vivos na memória não muito distante dos mais velhos. Oliveiras, plenas de vida que se perfilavam em rigoroso alinhamento, tons cinzento prateado, mescladas de sombras e pejadas de pontos azuis-escuros, deliciando tordos gulosos e saltitantes. Ia crescendo a alvorada, a noite partia e logo se desdobravam lonas e serapilheiras sobre a terra sulcada e úmida. Atacavam os ranchos para a apanha, homens e mulheres, rapazes e raparigas, que enchiam o olival com o seu linguajar. De vara em riste, avançavam possantes os varejadores, e elas, enquanto podiam, íam ripando nos galhos mais baixos.
De cócoras e de mãos engranhadas do frio, era apanhado o fruto tombado, limpo, enchendo cestos de vime e sacos, logo transportados para a tulha. Já escolhida tinha sido aquela que à curtimenta irá parar.
Retalhada e escaldada, na talha vidrada estagiará na companhia do sal, limão e louro, erva azeitoneira, casca de laranja e alhos, até ser conduto de mesa pobre ou rica.
Cantava o boieiro, tocando os bois, mexendo de quando em quando a moedura do pio, que logo mais será enseirada. As mós, pedras velhinhas de muitas lides, todos os anos eram esfregadas com soda cáustica ou potassa, até a alvura as tomar. E quando em marcha se punham, corria o povo a aliviar o ranço das talhas e das arcas e a desengordurar panelas.
Gemem as galgas do pio no esmagadouro e o cheirinho acre, do azeite novo, inunda o ar e apodera-se da alma. E como brilham as pelorazinhas amarelas, e que ricos os fiozinhos de ouro, que a todos inundam de alegria. É um benza-a-Deus, quando em anos de boa funda, o lastro do pio navega em azeite.
Já as seiras se ajeitavam, pelas mãos sábias do mestre lagareiro, na prensa que se preparava para à massa arrancar o ouro. Sobre o fuso e, sobre as seiras, panelões de água quente tombam. Enchem-se os vasos de bom azeite e água-ruça, que o mestre lagareiro separará com a sua vara, sangrando habilmente a fonte. Lá ficará o azeite novo, que dono tem. O boi, um litro levará por cada moinho e as lagareiras meio quartilho, outro tanto para o ajudante e o mestre quartilho inteiro.
Sai do lagar o belo rio amarelo, que para arcas e talhas corre, o líquido bendito, que dá vida aos vivos e alumeia os mortos. E nas maleitas ele servirá. Que na Espinhela Caída, o doente, deverá arregaçar a manga do braço direito, até ao cotovelo, e se untar com azeite até à sangria do braço, e na cura da Erisipela, que se corta com a corda de esparto, uma pena de galinha preta, um galho de oliveira molhado em azeite, e uma tesoura aberta dizendo uma reza, ou no tratamento dos furúnculos, que passam com casca de cebola e azeite a ferver. Mas, na hora suprema, uma almotolia para o Santíssimo é legado pio que a alma encomenda.

Fonte:

Desde há 6000 anos que o azeite faz parte dos hábitos dos povos que habitam a Bacia do Mediterrâneo. Originário no Antigo Egito, onde era utilizado para iluminar os palácios e como produto de beleza. Com os Fenícios, foi mesmo um dos produtos mais importantes nas suas relações comerciais.
Mais tarde com os gregos e romanos, juntamente com o vinho e o trigo, o azeite constitui a base alimentar do povo, que será mantida mais tarde pelos bárbaros, na Europa Medieval.
A sua crescente importância resultou das utilizações que lhe eram dadas na alimentação, medicina, higiene e beleza. Foi utilizado como combustível, lubrificante para ferramentas e alfaias agrícolas, impermeabilizante para fibras têxteis e elemento essencial em ritos religiosos.
Até ao Séc. XIX, foi utilizado nas lamparinas de azeite para garantir a iluminação, até à introdução das lamparinas a gás.

HISTÓRIA DO AZEITE EM PORTUGAL
O Azeite sempre esteve presente nos recantos da vida diária dos portugueses: na candeia do pobre e no candelabro do rico, na mesa frugal do camponês e nos solenes templos de velhos cultos. Em Portugal, a cultura da oliveira perde-se nos mais remotos tempos.
Segundo rezam as crônicas, os Visigodos já a deviam ter herdado dos Romanos e estes, possivelmente, tinham-na encontrado na Península Ibérica. Por sua vez, os Árabes mantiveram a cultura e fizeram-na prosperar, sendo que a palavra Azeite tem origem no vocábulo árabe al-zait, que significava "sumo de azeitona". De fato, as primeiras manifestações da importância da cultura da oliveira em Portugal aparecem nas províncias onde a reconquista cristã mais tardiamente se realizou.
Em Portugal, a partir do Séc. XII o azeite começa a revestir-se de maior importância que foi crescendo até os dias de hoje. Nesta época, Coimbra e Santarém já praticaram a cultura, extracção e venda do azeite em escala apreciável.
No Sec. XIII, o azeite torna-se um dos principais produtos de exportação. E é no reinado de D. João I, que a cultura do olival se expande à zona compreendia entre Coimbra e Évora, estendendo-se pelo Vale do Tejo, Santarém e Lisboa, Esta expansão deve-se em grande parte às Ordens Relacionadas instaladas nestas áreas. Durante os Secs. XV e XVI, o seu cultivo estende-se a nível nacional, assumindo uma maior importância econômica e social os oficios resultantes desta actividade. As descobertas marítimas, as conquistas em África em África e no Oriente, e o domínio da navegação e do comércio resultaram numa maior produção e comércio do azeite. No entanto, entre 1580 e 1640, com a perda da Independência foi necessário levantar restrições à exportação, para que não faltasse azeite aos portugueses, mesmo assim o comércio internacional manteve-se para a Flandes, Alemanha , Castela- Velha, Leão, Galiza, Índia e Brasil. Em 1650, o azeite era mesmo, um dos principais produtos exportados para a Inglaterra. Mas o crescimento rápido da cidade de Lisboa faz com que se acentue o desequilibro entre a oferta e procura. As necessidades do mercado eram dificilmente satisfeitas pelo azeite do pequeno agricultor que só vendia o que lhe sobrava dos seus gastos domésticos.
Assim, nos Secs. XVII e XVIII, surge a "travessia", ou especulação, em que os comerciantes compravam todo o azeite do ano para depois vendê-lo a preços mais altos. O Senado da Câmera de Lisboa, chega mesmo a fixar o preço de venda do azeite, para impedir este negócio a um maior número de pessoas.
Em finais do Séc. XVII, a produção do azeite sofreu uma relativa expansão, embora com algumas oscilações, o olival ati8nge os 570 mil hectares em 1654. Neste mesmo ano, é assinado um contrato com a Inglaterra, que permite àquele país a exportação de diversos produtos para o Brasil, excepturando o vinho, farinha, bacalhau e azeite. No reinado para o financiamento da construção do Aqueduto das Águas Livres em Lisboa. No Séc. XVIII, Coimbra deixa de ser o principal centro produtor e o melhor azeite passa a ser o de Santarém, Esgueira, Pinhel, Castelo Branco, Tomar, Campo de Ourique e Crato. Também o facto de os lagares pertencerem na sua maioria às Ordens Religiosas, suscitou muitas queixas por parte dos produtores, que resultou numa diminuição da produção. Acrescentando as guerras e calamidades sociais, o sector do azeite não era muito estável.
No Séc. XIX surgiram as primeiras fábricas juntamente com a introdução de novas técnicas e métodos numa tentaiva de aumentar a produção. Em 1893 surge a Fábrica de Azeite a Vapor, nos arredores de Lisboa e pertencente a Carlos Pecquet dos Anjos, mais tarde proprietário também das ábricas do Alvito.
Aproximadamente em 1840, surge a renovação dos lagares com a modernização mecânica, para o qual muito contribuíram as burguesias agrárias duriense, ribatejana e alentejana. Este movimento atingiu a sua maior expressão no séc. XIX.
A acção dos Agricultores do Douro, nas décadas de 30 a 50, fez com que este seja um dos melhores do país, constituindo-se num dos principais pólos de produção com métodos inovadores.
Em 1930, o sector do azeite era caracte-rizado por uma grande dispersão de produtores de pequena dimensão, existindo, no entanto, alguns empresários de maior importância. O principal problema com que o sector se debatia era a concorrência do monopólio do produtor de óleo alimentar de mendubim, na Guiné, cujos preços eram substancialmente inferiores ao do azeite. O governo manteve-se indiferente a estes problemas, e só intervém em 1937, ano em que a colheita do azeite foi bastante escassa, e a importação de Espanha não se pode realizar, devido à guerra civil daquele país, o que fez dispara o preço do azeite.
Nesse ano são concedidos créditos à produção, e é criada a Junta Nacional do Azeite com os objectivo de exercer uma acção reguladora sobre o mercado. Este organismo estatal tinha características de coordenação económica, mas pelas sua extensão de funções e capacidade de intervenção no mercado, foi necessário articular a sua actividade com um outro organismo - Grémio dos Armazenistas e Exportadores de Azeite.
Mais tarde, com a criação da comissão Reguladora de Oleaginosas a óleos vegetais, a conjunção da destes dois organismos serviu para articular os problemas da importação e da concorrência dos óleos de origem colonias com o azeite.
A partir dos anos 50, o Governo passa a fomentar a produção industrial de óleos alternativos e mesmo a cultura de certas sementes oleaginosas, como o cártamo e o girassol. A Junta Nacional do Azeite e a Comissão Reguladora fundem-se dando lugar ai Instinto do Azeite e Produtos Oleaginosos, igualando os dois produtos.
A crescente importância da produção de óleos alimentares e o êxodo rural, levaram à diminuição gradual da produção do azeite, que mantém até os dias de hoje.
Hoje, milhares de hectares de novos olivais foram plantados e, se é verdade que a introdução das novas tecnologias, da mecanização, das novas variedades, e métodos de irrigação provoca um contraste quase violento com a disposição fundiária e com os métodos tradicionais, também é verdade que tal introdução se traduziu em vantagens acrescidas para os olivicultores.

REGIÃO DEMARCADA DO AZEITE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Trás-os-Montes é uma região de contraste entre a montanha árida, com cursos de água que correm montes abaixo e vales férteis de rios serenos. As diferenças bruscas de altitude dividem-na em Terra Fria e a Terra Quente. E é nessa zona, com um máximo de 700 metros de altura, que se estende a oliveira. Embora a sua cultura seja muito anterior, só no Séc. XVI ganha importância. A mancha olivícola tem crescido em Trás-os-Montes porque o azeite é o mealheiro da economia rural de Trás-os-Montes assente no minifúndio, principal caracter-ística do olival transmontano, por isso a colheita é efectuada pelas famílias de olivicultores que se entreajudam nessa altura. Actualmente, os olivais novos contam com a introdução de novas tecnologias, são mecanizados e, muitas vezes, irrigados. 
Não podendo esquecer do inevitável sucesso da certificação de um produto genuíno de qualidade imbatível. Aqui se extrai o melhor azeite do mundo.
A produção de azeite concentra-se principalmente nos concelhos de Mirandela, Vila Flor, Macedo de Cavaleiros, Alfândega da Fé e zonas limitrofes, ocupando uma área de 61.750 hectares.